Uma memória emocional pode influenciar os sonhos desta noite?

Uma memória emocional pode influenciar os sonhos desta noite?

Muitos de nós já fomos dormir com uma lembrança ainda presente na mente. Um reencontro feliz, uma conversa dolorosa ou um momento de anos atrás pode parecer especialmente próximo quando o dia fica mais quieto.

É fácil imaginar que essas memórias possam nos acompanhar nos sonhos. Supor que sonhar com elas ajude a amenizar seu impacto emocional é um passo além.

Um novo experimento coloca as duas ideias à prova.

Em uma pesquisa publicada na SLEEP Advances, Henderson S. Holder e Erin J. Wamsley descobriram que relembrar memórias autobiográficas emocionais antes de dormir influenciou as emoções vivenciadas depois nos sonhos.

No entanto, sonhar com essas memórias não previu uma redução, ao longo da noite, da reatividade emocional em relação a elas.

A distinção é importante. Um sonho pode carregar algo da vida desperta sem necessariamente tornar essa experiência mais fácil de enfrentar na manhã seguinte.

Levar uma memória para a cama

O estudo envolveu 42 participantes que, antes de dormir por três noites consecutivas, realizaram uma tarefa com memórias muito emocionais de suas próprias vidas.

Eles forneceram até três relatos orais de sonhos por noite. Um monitor de atividade usado no pulso ajudou os pesquisadores a estimar quando estavam dormindo.

Isso permitiu relacionar uma experiência deliberada antes do sono aos relatos do que ocorreu nos sonhos e, em seguida, examinar mudanças noturnas na forma como os participantes se sentiam em relação às memórias.

Duas perguntas estão no centro dessa abordagem.

Trazer uma memória emocional à mente influencia o sonho que vem depois?

E, se essa memória aparece em um sonho, a pessoa se sente diferente em relação a ela ao acordar?

O tom emocional chegou aos sonhos

O caráter positivo ou negativo das memórias evocadas antes de dormir influenciou fortemente o tom emocional dos sonhos seguintes.

Os pesquisadores também esperavam que memórias negativas aparecessem nos sonhos com mais frequência do que as positivas. Em vez disso, as memórias positivas apareceram mais vezes nessa amostra, mas as evidências não foram fortes o bastante para concluir com segurança que um dos tipos tinha maior probabilidade de entrar nos sonhos.

Sonhar com algo não é o mesmo que resolvê-lo

O outro efeito esperado dizia respeito à reatividade emocional.

Se sonhar com uma memória difícil ajuda a reduzir sua carga emocional, quem sonha com ela poderia sentir maior alívio pela manhã.

O estudo não encontrou essa relação. As mudanças noturnas na avaliação emocional das memórias não tiveram relação com a emoção ou o conteúdo dos sonhos.

Isso deixa duas afirmações que precisam ser consideradas separadamente.

Experiências da vida desperta podem influenciar os sonhos.

Sonhar com uma experiência pode mudar nossa reação posterior a ela.

As evidências para a primeira afirmação, por si só, não comprovam a segunda. Reconhecer em um sonho uma preocupação da vida desperta nos diz algo sobre o que entrou nele. Demonstrar um benefício emocional exige medir o que mudou depois.

Como isso se relaciona com outras pesquisas

Uma distinção semelhante apareceu no estudo abordado em “Sonhos assustadores realmente nos ajudam a processar o medo?”. Nessa pesquisa, pessoas que relataram mais medo nos sonhos apresentaram respostas cerebrais mais fortes a imagens negativas enquanto estavam acordadas, desde que também tivessem relatado uma qualidade de sono geralmente boa. No entanto, mais medo nos sonhos não esteve associado a uma melhor regulação emocional.

Os dois estudos abordam a questão de maneiras diferentes. O estudo anterior examinou se o medo relatado nos sonhos ao longo de uma semana estava associado às respostas a imagens durante a vigília, inclusive à capacidade de reduzir essas respostas deliberadamente. Este experimento reativou memórias pessoais antes do sono e examinou se sonhar com elas estava associado a mudanças na forma como os participantes se sentiam depois.

Por isso, os resultados são complementares, e não uma replicação direta. Ambos relacionam as emoções dos sonhos à experiência emocional durante a vigília, ao mesmo tempo que testam possíveis benefícios diferentes.

Várias teorias influentes propõem que sonhar nos ajuda a elaborar experiências emocionais, deixando-nos menos reativos ou mais capazes de administrar nossos sentimentos depois. Nenhum dos estudos encontrou evidências do benefício emocional específico que investigou.

Ainda assim, os sonhos podem refletir, revisitar ou reorganizar experiências emocionais sem nos fazer sentir melhor pela manhã. Nenhum dos estudos descarta essa possibilidade nem estabelece quanto processamento emocional os sonhos realizam.

O que o estudo não pode nos dizer

O experimento acompanhou 42 pessoas durante três noites e examinou mudanças ocorridas durante a noite. Ele não pode determinar o que aconteceria em períodos mais longos, com outros tipos de memórias ou em circunstâncias diferentes.

Influenciar a emoção de um sonho também não significa controlá-lo. Os resultados não mostram que alguém possa escolher uma cena de forma confiável, reproduzir uma memória com exatidão ou determinar como um sonho terminará.

Leia a pesquisa

Holder, H. S. e Wamsley, E. J. (2026). “Experimentally Manipulating Dream Content by Reactivating a Remote Emotional Memory”. SLEEP Advances. Publicado em 4 de setembro de 2026. Manuscrito aceito.